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O CIRCO E A CAPOEIRA Imprimir E-mail
Escrito por Rogério Sette Câmara   
10.06.2003
 

A capoeira é uma atividade muito expressiva. Não que a ginástica olímpica não seja, mas a capoeira é uma expressividade que nasceu como uma forma de resistência e luta de um povo escravizado e sofrido. E ela foi crescendo até se tornar um jogo lúdico. E o jogo é a parte mais rica da capoeira. O que acontece de bom na capoeira é a energia que tem dentro da roda que só o capoeirista sente. Os apoeiristas amam a capoeira porque existe o jogo, a troca.

Então a capoeira foi desenvolvendo uma nomenclatura e gestualidade acrobática própria. E as pessoas que hoje trabalham no mundo inteiro com acrobacia quando vêem os movimentos de capoeira, tem que pedir para o capoeirista repetir duas, três vezes. A pessoa pode saber muito da ginástica olímpica, mas fica sem compreender. Como se faz aquilo? De onde se tira o impulso?

A capoeira quanto manifestação para a acrobacia brasileira é um primeiro foco de estudo. Eu não posso apresentar uma roda de capoeira como um espetáculo de circo. Lá na França, no Canadá, pode ser até lindo. O Archaos, por exemplo, levou uma trupe de capoeiristas da Senzala para se apresentar no circo . Foi o maior sucesso, o público aplaudiu o exótico. Já no Brasil, isso não funcionaria.

Eu vejo mais possibilidades da capoeira enquanto movimentação, disciplina acrobática, ritualização. A energia que tem dentro de uma roda de capoeira ou em um terreiro de candomblé é o que Grotowski e Eugênio Barba, buscam com o teatro antropológico .

A ritualização da capoeira é muito importante. Saber como entrar e sair de uma roda, os diversos toques do berimbau, a improvisação...A capoeira é sempre improvisada. Por que muita gente pensa que as coisas na capoeira são combinadas anteriormente? Por quê? É que os movimentos circulares permitem emendar uma coisa na outra. Trabalhar em giro possibilita que o outro vá entrando. Na capoeira tem o jogo de dentro, tem um jogo mais próximo, um acompanhando o outro, tem os jogos mais longe, tem os jogos acrobáticos que são ainda mais longe. E aí que vem os estilos da capoeira – o toque de Angola , o Regional.

E tem também a falsidade. A capoeira tem uma grande falsidade:
- Ai, eu tô machucado. Tô machucado! Vem aqui, vem aqui... E tome-lhe um tapa na orelha.
Essa coisa de estar mentindo, representando um para o outro é muito importante na capoeira. Ela joga com a falsidade que é um elemento bom para o artista perceber sua capacidade corporal. Porque eu não falo que estou doente ou cansado, eu mostro corporalmente.



 
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